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quarta-feira, 3 de outubro de 2018

RACHAR ÁTOMOS E DEPOIS, Ricardo Escudeiro


RACHAR ÁTOMOS E DEPOIS, livro de poemas de Ricardo Escudeiro (Patuá, 2016) foi o retorno da leitura de poemas após a leitura de alguns contos e romances. A primeira imersão foi positiva (as outras destrincho depois), pois estava sedento deste tipo de leitura.
Mas o que interessa aqui é falar sobre o livro. Então vamos lá!
A fissão nuclear, como sabemos, gera uma reação em cadeia e assim é quando começamos a leitura. As referências à cultura "pop"(música, cinema, artes marciais...)  e as preocupações que o autor deixa vazar nas entrelinhas dos poemas faz com que a fluência seja desencadeada.
Acredito que um bom poema deve "bater na alma" do leitor, seja pela sua forma, estética ou conteúdo, mas ele pode funcionar com um leitor e não funcionar com outro. Quando aproximamos o poema de nossa realidade e criamos esta empatia, a tarefa fica mais fácil. E o autor consegue fazer com que isso aconteça pelo conjunto de seus poemas, um paradigma quase que perfeito (porque não acredito em perfeição) temperado com o grito do rock, do ringue e da rua.

" a pelúcia fria sorria
   na vitrina
   enquanto a outra passivamente
   atônita
   pichava mentalmente o vidro com reflexo... "

(natureza morta, p.68)

E como a proposta aqui é mostrar apenas as MINHAS mínimas impressões, faço um convite à leitura (de um fôlego só, você vai ver).



Livro : RACHAR ÁTOMOS E DEPOIS
Autor: Ricardo Escudeiro
Gênero: Poesia
Editora: Patuá
Ano: 2016

terça-feira, 21 de agosto de 2018

O PESO DO PÁSSARO MORTO - de Aline Bei

leitura boa
para ler de um vôo só,
as palavras soltas
também voam e dão leveza ao texto,
mas  às vezes caem pesadas
como o pássaro arrebatado,
às vezes viaja também e
remete o leitor a outro tempo,
tempo de criança, jovem ou adulto,
tempo de vida e de morte (sem spoiler).

Fui convidado pela autora a ler
"O Peso do Pássaro Morto" (Bei, Aline -
Editora Nós, 2017) e aceitei sem
muitas pretensões.
Quando recebi o livro, comecei a ler e não
quis mais parar.
A história de uma mulher dos 8 aos 52
anos de idade, narrativa cheia de rupturas que
instigam a continuidade da leitura até
o golpe final.

A pureza da menina às vezes
aparece nas fases jovem e adulta da personagem como, de
maneira reversa, apresenta sua maturidade. Assim é o
livro do começo ao fim: leve e pesado ao mesmo tempo.
A balança pende de um lado para o outro a todo o momento
- uma gangorra - e é o que faz mover as emoções do leitor.


(Carlos Antonholi - Agosto de 2018)


Livro : O PESO DO PÁSSARO MORTO
Autor: Aline Bei
Gênero: Romance
Editora: NÓS
Ano: 2017

terça-feira, 28 de junho de 2016

Resenha: O MONSTRO E SEUS VAZIOS

 “O Monstro e seus Vazios” (Benfazeja, 2016 -1ª reimpressão) é o livro de estreia de Wellington Souza, embora o autor (e editor) tenha participado anteriormente de antologias, revistas literárias e concursos com seus contos e poemas.

O ponto de partida do livro é o fragmento de “A hora da Estrela” (Clarice Lispector) : “Quem nunca se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?”  que traduz a indagação do individuo perante sua existência.

E o “monstro” do título pode estar na própria estrutura de um livro cheio de vazios, encontrados entre os versos dos poemas ou, para além da forma, em seu próprio conteúdo, que é o sentimento expressado pelo eu-lírico.

O conflito com o outro, com o amor, com os espaços e consigo mesmo, no caso o eu-lírico, por vezes recortado pelo cigarro, tão recorrente nos poemas, faz o desenrolar da obra.


Em “perdidos” , por exemplo, há uma narrativa poética em seus versos onde o vazio se destaca no passar do tempo pelos períodos do dia (manhã e tarde), e a situação em si.

“manhã/ela tomou um ansiolítico/ele fumou quatro cigarros/dormiram, por fim/ tarde/ ela não saiu da cama/nem ficou ouvindo música/olhando para o teto/ele escovou os dentes/por meia hora/encostado na parede do quarto” (página 43) .

A dimensão do “monstro” não está em seu aspecto físico e sim de como ele é encarado. Desperta e repousa em cada estrofe. O fluxo de consciência dos poemas o define.

Todos estes elementos e a escolha estética entre forma e conteúdo faz deste um trabalho que leva o leitor a reconstruir os sentidos e o lirismo em cada poema.



Livro : O MONSTRO E SEUS VAZIOS
Autor: Wellington Souza
Gênero: Poesia
Editora: Benfazeja
Ano: 2016 (1ª reimpressão)

sábado, 30 de janeiro de 2016

Resenha: SUICIDAS



Podemos dizer que Raphael Montes estreou na literatura com o pé direito, do ponto de vista da carreira de um escritor, pois foi com o livro Suicidas, que conseguiu ser finalista dos prêmios Machado de Assis, Prêmio São Paulo de Literatura e Benvirá.

O livro conta a história de nove jovens, universitários da elite carioca, que se reúnem no porão da mansão Cyrille´s House acompanhados de uma Magnum 608, munida de nove balas para uma roleta-russa. Aparentemente estes jovens não possuem nenhum motivo para cometer suicídio, mas com o desenrolar do enredo descobrimos que nuances da personalidade de cada um somados ao uso de drogas, incluindo o álcool, podiam tê-los levado a este jogo. Porém as mães destes jovens estão em um tribunal para tentar entender o que aconteceu de fato naquela noite. Esta é a indagação que conduz o enredo.

A estrutura da narrativa não é linear e foge do clichê dos livros do gênero, já que Montes a divide em três momentos: o diário de Alessandro, aspirante a escritor, onde estão as anotações sobre a reunião dos protagonistas na mansão Cyrille´s House, o encontro das mães perante a delegada um ano depois e o registro de algumas passagens no livro que Alessandro escreveu antes de morrer, divido em capítulos, inclusive. É o livro dentro do livro, quase uma metalinguagem.

Tudo bem amarrado pelo diálogo das mães com a delegada enquanto estas acompanham os escritos registrados por Alessandro. Há mais uma vez uma ruptura formal nestes momentos, pois o diálogo é desenvolvido como nos textos teatrais: o discurso direto entre as personagens, com rubricas, etc. Este recurso nos leva a acreditar que o encontro entre as mães e  delegada está acontecendo em tempo presente. Estas rupturas deixam algumas pontas, porém estas não interferem no entendimento da história.

O excesso de detalhes, o que torna a literatura mais prazerosa, em Suicidas acaba sendo um pouco massante para o leitor, mas nada que atrapalhe a leitura.

Suicidas consegue entreter o leitor, principalmente aquele que aprecia tramas policiais extensas, recheadas de intriga, sangue e personagens complexos.


Título: Suicidas
Autor: Raphael Montes
Editora: Benvirá
Páginas: 488
ISBN: 978-85-640655-7-4
Ano: 2012